Em 23 de junho de 2016, o Reino Unido foi às urnas e decidiu deixar a União Europeia. O resultado do referendo marcou uma das mudanças políticas e econômicas mais profundas da história recente europeia e inaugurou um período de incerteza que atravessou governos, mercados e setores inteiros da economia.
Entre os mais atentos estavam os profissionais da indústria criativa. Design, moda, publicidade, arquitetura, produto e tecnologia criativa formam um ecossistema altamente internacionalizado, dependente de circulação de pessoas, troca de ideias e acesso rápido a mercados globais. A promessa do lado favorável ao Brexit era clara: um Reino Unido mais livre das regras de Bruxelas, mais ágil, mais competitivo e mais conectado ao mundo. Um país, nas palavras da campanha, “mais rico, mais rápido e mais influente globalmente”.
Mas dentro dos estúdios de design, agências e escritórios criativos, o sentimento dominante naquele momento era de apreensão.
Um setor criativo em alerta
Nos dias que antecederam e sucederam o referendo, líderes do setor criativo alertaram para possíveis impactos negativos. A preocupação central girava em torno de três pilares: mobilidade de talentos, comércio internacional e proteção de propriedade intelectual.
A indústria de design britânica sempre dependeu fortemente de profissionais internacionais. Designers, diretores de arte, ilustradores, estrategistas de marca e engenheiros de produto circulavam com facilidade entre Londres, Berlim, Paris e Milão. A possibilidade de restrições à livre circulação levantou um sinal de alerta imediato.
Ao mesmo tempo, havia receio sobre como ficariam as exportações de serviços criativos e a importação de materiais, softwares e componentes usados em projetos de design de produto e tecnologia. Outro ponto sensível era a proteção de propriedade intelectual, essencial para um setor baseado em inovação e ativos intangíveis.
Naquele período, o clima era de urgência. Muitos estúdios pediam garantias ao governo sobre vistos, acordos comerciais e continuidade de colaboração internacional. A indústria da moda, em particular, chegou a realizar campanhas públicas expressando preocupação com o futuro da criatividade britânica no cenário global.
A promessa de um novo começo
Do lado político, os defensores do Brexit argumentavam que a saída da União Europeia permitiria ao Reino Unido redesenhar suas próprias regras. Haveria menos burocracia, mais autonomia regulatória e maior capacidade de firmar acordos comerciais com países fora do bloco europeu.
A narrativa era de libertação econômica. Um país que poderia se reinventar como hub global de inovação, sem as limitações de um sistema regulatório compartilhado.
Para setores como o design, essa promessa era ambígua. Em teoria, mais liberdade poderia significar novas oportunidades. Na prática, porém, a indústria dependia de ecossistemas integrados, cadeias de produção distribuídas e circulação constante de pessoas e serviços.
O choque da realidade: os primeiros anos após a decisão
Entre 2016 e a formalização do Brexit em 2020, o setor criativo viveu um período de incerteza prolongada. Projetos foram adiados, contratações internacionais desaceleraram e muitas empresas passaram a reavaliar sua presença no Reino Unido.
Londres, historicamente um dos maiores centros criativos do mundo, começou a enfrentar concorrência mais agressiva de cidades europeias que buscavam atrair talentos e escritórios de design.
A saída formal do bloco europeu, concluída no início da década de 2020, trouxe novas regras de imigração e comércio. O impacto não foi uniforme, mas foi profundo o suficiente para reorganizar fluxos de trabalho em várias áreas.
Mobilidade de talentos: o coração do problema
Se há um ponto em que o impacto do Brexit se tornou mais visível, foi na mobilidade de profissionais.
Antes, um designer espanhol podia se mudar para Londres com relativa facilidade. Um diretor de criação francês podia aceitar um projeto de curta duração em uma agência britânica sem grandes barreiras administrativas. Esse fluxo constante ajudava a manter o setor criativo britânico vibrante, diverso e altamente competitivo.
Após o Brexit, esse cenário mudou. Novas regras migratórias exigiram vistos mais complexos, critérios mais rígidos e processos mais longos.
Para empresas de design, isso significou aumento de custos, mais burocracia e, em alguns casos, perda de acesso rápido a talentos internacionais. Freelancers europeus passaram a enfrentar mais dificuldades para aceitar projetos de curto prazo no Reino Unido.
O efeito cumulativo foi menos visível no curto prazo, mas estrutural no longo prazo: uma desaceleração na circulação espontânea de criatividade.
Comércio, clientes e cadeias criativas
Outro impacto significativo ocorreu nas relações comerciais.
O design não é apenas um serviço criativo isolado. Ele está profundamente conectado a cadeias de produção que incluem impressão, manufatura, tecnologia, moda, arquitetura e desenvolvimento de produto.
Com o Brexit, novas barreiras alfandegárias e regulatórias tornaram parte dessas operações mais complexas. Em projetos que envolvem prototipagem física, envio de materiais entre países ou produção distribuída, surgiram atrasos e custos adicionais.
Agências que trabalhavam com clientes europeus precisaram adaptar contratos, revisar prazos e reorganizar logística.
Embora o impacto não tenha sido uniformemente negativo, ele introduziu uma camada de fricção que antes não existia.
Propriedade intelectual e inovação
A proteção de propriedade intelectual sempre foi um pilar central do design britânico. Marcas, identidades visuais, produtos digitais e sistemas de design dependem de um ambiente jurídico claro e estável.
Após o Brexit, parte da harmonização regulatória com a União Europeia deixou de ser automática. Isso exigiu adaptações jurídicas e aumentou a complexidade para empresas que operam simultaneamente em múltiplos mercados.
Para grandes estúdios e marcas globais, essas mudanças foram absorvíveis. Para pequenos estúdios e freelancers, porém, o aumento da complexidade legal representou um desafio adicional.
O impacto desigual dentro da indústria
Uma das características mais importantes do pós-Brexit é que seus efeitos não foram homogêneos.
Grandes agências de design com atuação global conseguiram se adaptar com mais facilidade. Elas têm recursos para lidar com questões legais, abrir escritórios em outros países e ajustar suas cadeias de produção.
Já pequenos estúdios, profissionais independentes e startups criativas enfrentaram maior pressão. Para muitos, a combinação de burocracia, custos e incerteza reduziu a margem de experimentação.
Em alguns casos, isso levou à migração de negócios para cidades dentro da União Europeia. Em outros, resultou em uma mudança de foco para clientes locais ou mercados menos regulados.
O “novo normal” criativo
Uma década depois do referendo, a pergunta central permanece: o Brexit foi um choque temporário ou uma mudança estrutural permanente?
A resposta mais honesta parece estar entre os dois.
O setor criativo britânico não colapsou. Continua sendo um dos mais relevantes do mundo, com forte presença internacional e alta capacidade de inovação. No entanto, o ambiente operacional mudou.
Hoje, há mais planejamento e menos espontaneidade na colaboração internacional. Há mais contratos formais e menos improviso criativo transfronteiriço. Há mais custos administrativos e menos fluidez.
Em outras palavras, o sistema não parou, mas ficou mais pesado.
O que aconteceu com as promessas iniciais?
A promessa de um país mais ágil e globalmente competitivo encontra uma realidade complexa.
O Reino Unido continua sendo um centro importante de design, especialmente em áreas como branding, moda, design digital e publicidade. No entanto, a competição internacional aumentou, e algumas vantagens históricas foram parcialmente reduzidas pela fricção regulatória.
A ideia de liberdade total de ação fora da União Europeia também se revelou mais difícil na prática. A necessidade de novos acordos, regras migratórias e adaptações comerciais criou um sistema mais fragmentado do que o esperado por muitos defensores da saída.
Dez anos depois: o balanço da indústria
Hoje, ao olhar para trás, profissionais do setor criativo tendem a descrever o período como uma transição longa, mais do que um evento único.
Alguns apontam oportunidades: maior foco em mercados fora da Europa, fortalecimento de identidades locais e incentivo à adaptação digital.
Outros destacam perdas: dificuldade de atrair talentos europeus, aumento da burocracia e redução da fluidez criativa internacional.
O consenso, no entanto, é mais sutil. O Brexit não destruiu a indústria de design britânica, mas alterou seu ritmo, sua escala de colaboração e seu posicionamento global.
Uma pergunta ainda em aberto
Ao completar uma década da votação, a indústria criativa continua tentando responder à mesma pergunta: como seria o design britânico hoje se nada tivesse mudado?
Não há resposta definitiva. O que existe é uma paisagem reconfigurada, onde cada estúdio, cada profissional e cada empresa encontrou sua própria forma de adaptação.
Alguns prosperaram com novas estratégias internacionais. Outros reduziram escopo ou mudaram de mercado. Muitos simplesmente aprenderam a operar dentro de um sistema mais complexo.
O que permanece claro é que o design, por sua natureza, sempre foi um setor de adaptação constante. E talvez por isso, mesmo diante de mudanças profundas como o Brexit, ele continue se reinventando.

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