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Entrevista exclusiva com Felipe Memória/NY
"Para atingir o seu potencial máximo você precisa competir com os melhores"
Por Tiago Bosco em 15/07/2013
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Felipe Memória é Designer e Mestre em Design pela PUC-Rio, na linha de pesquisa Ergonomia e Usabilidade e Interação Humano-Computador. Atuou como designer de interface da Globo.com, foi um dos sócios da Huge e recentemente se tornou sócio-fundador da Work & Company.

WIDE Recentemente você se tornou sócio-fundador da Work & Company, com sede no Brooklyn, em Nova York. Poderia comentar sobre esta nova fase da sua carreira e os principais objetivos da agência?
FELIPE MEMÓRIA
Abrir minha própria empresa sempre foi o meu objetivo de vida. Não sabia se conseguiria um dia, pois envolve uma série de coisas, mas sempre me preparei para esse momento, encarando todos os meus empregos como treino. E depois de ter uma carreira sólida no Brasil na época da Globo.com, escrever o livro, crescer e ir bem em Nova York, cheguei a conclusão que a hora era essa - aos 35 anos. Sinto que estou no auge do equilíbrio das minhas habilidades profissionais e ainda tenho energia o suficiente, sangue nos olhos, para começar do zero mais uma vez. Eu sempre valorizei muito o trabalho em si, ser capaz de projetar pessoalmente e em alto nível, e continuei fazendo isso mesmo tendo responsabilidades mais executivas - o que é muito raro para um designer. Gerenciamento de equipe, recrutamento, trabalhar em múltiplos projetos, apresentações, relacionamento com clientes, concorrências, aquisições, decisões sobre o negócio etc. - o normal é que o designer vire chefe e se aposente das suas funções primárias. Eu lutei contra isso e esse treino todo em habilidades complementares foi fundamental para me sentir pronto para essa nova etapa.

A empresa dos meus sonhos, a Work & Company, não é uma agência de publicidade - nem temos intenção de ser full service, ou 360 como muitas empresas falam que são. Nós nos interessamos mais pela parte do produto, do negócio, do que pela comunicação em si. Não que a comunicação não seja importante, é importantíssima, mas não é o nosso foco. Ao invés de falar sobre o produto, nós fazemos o produto - aliamos pensamento estratégico com execução, desenvolvimento e toda a parte de feedback dos usuários e métricas. E é essa a parte do trabalho que mais nos interessa, que somos melhores. Ao invés de vídeos visionários tentando prever o futuro, preferimos projetos realistas que têm grande potencial de serem lançados - serviços que as pessoas utilizarão de fato. Se ninguém usar o que projetei, perdi tempo de vida. Muitas vezes nosso trabalho tem potencial de fazer com que as pessoas tenham uma vida um pouco melhor através dos meios digitais - e no final é isso que queremos.



O objetivo da Work & Co é puro e está no nome: o trabalho. A única coisa que importa para nós é fazer projetos excepcionais, que as pessoas adorem, usem no seu dia a dia, e que deixem a concorrência em pânico. Para isso, estamos focando na contratação das melhores pessoas do mercado - coisa que sempre fiz. Contratar os craques e treinar a próxima geração. E nosso processo será oficialmente o processo em que trabalhei - até então clandestinamente e burlando as regras - nos melhores projetos da minha carreira - um time enxuto focado nos principais problemas dos usuários e prototipando/testando até que consigamos um produto muito superior aos concorrentes - útil, lindo e puro.


WIDE Dentre os profissionais que passaram a fazer parte da equipe da Work & Company, além de você, estão os renomados Gene Liebel (Huge), Joe Stewart (Huge), Marcelo Eduardo (Huge) e Mohan Ramaswamy (McKinsey & Company). Como se deu a montagem desse time? Podemos dizer que a Work & Company nasceu com o DNA da Huge?
FELIPE MEMÓRIA
O Gene foi um dos fundadores da empresa e responsável pela implementação da disciplina de UX e do processo que foi importante pra Huge chegar onde chegou. Eu e Joe éramos a principal dupla de criação e os chefes dos dois principais departamentos da empresa: User Experience e Visual Design. Basicamente nós liderávamos o design da Huge globalmente. O Marcelo era VP e a maior autoridade em celular e novos devices, e o Mohan foi quem começou a disciplina de estratégia. Grande parte da cultura e dos valores da empresa eram representados por nós.

A montagem do nosso time em si parte de uma idéia simples: trabalho de equipe em alto nível. Eu acredito muito em colaboração. Então o time foi montado com as melhores pessoas com quem trabalhamos - mas que tinham habilidades complementares. Trabalhei com outras pessoas excepcionais na minha carreira, que espero ter a honra de trabalhar novamente, mas o primeiro time tinha que ser montado levando-se em consideração as especialidades complementares de cada um. Não poderíamos trabalhar da forma como trabalhamos sem todas as peças nas posições que precisávamos. E foi assim que organizamos o time fundador. Tenho orgulho e me sinto privilegiado de ter todos eles como sócios.


WIDE Nos últimos cinco anos, o mercado digital brasileiro cresceu de maneira significativa ganhando destaque internacional. Apesar disso, muitos profissionais, como você, escolheram trabalhar nos EUA ou na Europa. Em sua opinião, quais são os pontos mais fortes e mais fracos deste mercado estrangeiro, se compararmos com o Brasil?
FELIPE MEMÓRIA
Levando-se em consideração minha experiência maior nos EUA, existem três pontos principais: a quantidade de investimento, a competição em nível mais alto e o profissionalismo. Primeiro que os orçamentos para projetos são muito maiores aqui. Existem mais empresas capazes de investir e, consequentemente, mais projetos. Por esse e outros motivos, muitos dos melhores profissionais do mundo estão aqui. E eu acredito que para atingir o seu potencial máximo você precisa competir com os melhores. Por último, a diferença de profissionalismo é grande em vários sentidos - desde a forma como os funcionários são tratados no dia a dia até a forma como as empresas organizam financeiramente suas contas. Um ponto fraco é a falta de jogo de cintura. É quase garantido que um profissional de alto nível no Brasil terá sucesso nos EUA também - porque fomos todos treinados pelo "BOPE" de certa forma. Você tem que improvisar, tirar água de pedra, lutar contra a burocracia e ralar muito. A quantidade de talento no Brasil é absurda e acho que por isso acontece o destaque internacional. Acho que mesmo com a falta de boas referências, principalmente na área de User Experience, a quantidade de gente talentosa é fora do comum se comparada a outros países. E eu pude comprovar isso quando conversei com donos de empresas asiáticas e europeias. Todas reclamavam da mesma coisa: "não tem gente boa aqui". E eu pensava: "eu sei onde tem muita gente boa".

"A quantidade de gente talentosa é fora do comum se comparada a outros países"


WIDE No decorrer da sua extensa trajetória profissional, poderia citar um projeto no qual você fez parte, considera especial e comentar os motivos?
FELIPE MEMÓRIA
Eu tenho orgulho de muitos projetos que participei. O novo itau.com.br, cuja parte não logada já foi para o ar, mas ainda não foi lançado por completo, poderá ser muito importante pela quantidade de pessoas que irá impactar. E, se tudo der certo, vai melhorar de fato a vida de milhões de brasileiros. É um site tão melhor, mas tão melhor que qualquer coisa que já vi na área financeira, que mesmo tendo sido projetado há quase três anos tem o potencial de impactar absurdamente não só a vida financeira das pessoas como o mercado digital brasileiro de uma forma geral. Dos que já lancei, os aplicativos da HBO GO foram os mais bem sucedidos. Todo mundo aqui tem. Eu já perdi a conta dos prêmios que ganhou e da quantidade de vezes que a Apple usou como exemplo. Já está na história como um dos principais aplicativos de todos os tempos. O resultado foi tão bom que me fez perceber que o sucesso não foi por causa do nosso design, mas sim pela qualidade do conteúdo. O que fizemos foi simplesmente fazer com que o design saísse do caminho, fosse transparente para que o conteúdo pudesse brilhar. Essa foi a intenção desde o início - essa "ausência" de interface fez com que os assinantes da HBO pudessem assistir suas séries e filmes preferidos quando quisessem, onde quisessem, sem maiores dificuldades e com um aplicativo que funciona perfeito e é lindo.


WIDE Voltando a falar da Work & Company, é possível nos adiantar alguns projetos e clientes que farão parte do portfólio de vocês?
FELIPE MEMÓRIA
Nosso primeiro cliente foi o Google. Em seguida fechamos com duas startups, uma delas chama-se Bedrocket , empresa que pode revolucionar o espaço de mídia e entretenimento, e a outra infelizmente não posso revelar. Nosso novo cliente é a Makerbot, que está liderando a revolução das impressoras 3D. Nós queremos trabalhar com empresas sofisticadas que apreciem o nosso processo. Empresas que querem um time enxuto de pessoas excepcionais que vão trabalhar em parceria de verdade com o time interno para resolver os principais problemas dos negócios digitais. Não queremos ter reuniões inúteis e voltar para o escritório, sumir por duas semanas e fazer uma mega apresentação vendendo o projeto. Idealmente não faremos apresentação formal nenhuma - é um trabalho em conjunto no dia a dia - sem surpresas e de completa transparência e cumplicidade. Nós não teremos aquelas pessoas que incham o custo mas não adicionam ao produto em si. E acreditamos que essa abordagem é a melhor forma de pensar e projetar produtos realmente inovadores e vencedores - foi o que a nossa experiência por todos esses anos mostrou. Queremos de certa forma impor nosso processo e trabalhar com clientes dispostos a incorporar essa filosofia de trabalho. Não temos o menor interesse em ser a maior empresa do mercado. Queremos, sim, ser a melhor.

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