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E aí, bicho?
Eu quero o Obama de volta - 04/02/2017
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Sim, eu sei, ninguém fala mais "bicho" há uns 30 anos, e de lá para cá venho fazendo o que posso para aprender as gírias novas. Ainda não me sinto à vontade para chamar os outros de "véio", mas incorporei tardiamente ao repertório invenções impagáveis como "zoado" e "sussa".

Algumas coisas, porém, eu queria ter aprendido antes, muito antes, talvez na própria época em que se falava "bicho". Por exemplo: que somos bichos. Pois é, demorei cinquenta e dois anos para assimilar esse fato, e talvez tivesse dado menos cabeçadas por aí, menos tiros no pé, teria queimado menos velas com maus defuntos (essa eu aprendi com minha avó).

Procure por alguma palestra TED de um cara chamado Steven Pinker. Você certamente já viu esse cara, sua cabeleira prateada e olhos azuis são inconfundíveis. Ele ganhou notoriedade recentemente com o livro Os Melhores Anjos da Nossa Natureza, onde ele demonstra que, ao contrário do que o Datena, a Fox News, o Trump e a sua avó te dizem toda vez, o mundo não está mergulhando em carnificina e crueldade. Pasme, mas o mundo está ficando (e taí uma boa oportunidade para usar a palavrona) inexoravelmente mais civilizado.

Claro que nem todo mundo concorda, e opinião todo mundo tem a respeito de tudo, mas o Pinker se baseia em fatos: todas as estatísticas mostram que o passado era mais violento, e quando falo de passado não estou só falando de conquista da América, estou falando dos nossos antepassados primitivérrimos. Nossos tatatatatatataravós se matavam a torto e a direito, mesmo sem o tatatatata das metralhadoras. Mesmo tribos indígenas (que eu jurava serem todos inofensivos como pandas) vivem se matando em guerras sem fim (e isso inclui os ianomâmis, quem diria). Se plotarmos quantas pessoas morreram por morte violenta desde que o mundo é mundo, a curva fala por si só: apesar da Siria, das Guerras Mundiais, do ISIS, hoje matamos proporcionalmente menos. Em suma: estamos nos civilizando devagarinho, aos trancos e barrancos (por barranco entenda-se Trumps e Putins).

Eu me lembrei do Pinker nem tanto por causa desse livro, mas por outro, anterior, que estou prestes a terminar. O livro se chama Tábula Rasa (Blank Slate, em inglês), e este é um livro que eu queria ter lido quando tinha a idade de vocês. Não esperem trinta anos, por favor.

Sobre o que são as seiscentas páginas do livro? São sobre uma página em branco, ou melhor, sobre o mito da página em branco. Em algum momento alguém (Rousseau, talvez) veio com a ideia de que seres humanos nascem em branco, e se viramos Trumps e Putins a culpa é da sociedade perversa que corrompe nossas almas virginais. Sim, sim, você já ouviu isso em algum lugar e talvez acredite nisso e deve gostar de acreditar nisso, porque é sempre um prazer colocar a culpa em algo externo e maligno...

Rousseau "comprovou" a sua tese através do mito do bom selvagem: tribos indígenas, ainda não deturpadas pela civilização, seriam puras, doces, pacíficas e honestas, uma balela completa que muita gente acreditou porque ainda não tinha youtube nem Discovery Channel. Se quiséssemos ser bonzinhos de novo, era só... reformar a sociedade, em outras palavras, revolução. Com uma nova sociedade perfeita e justa os homens seriam perfeitos e justos, e seguindo essa ideia romântica Stalin dizimou dezenas de milhões, Mao outros tantos, Fidel um outro tanto, Hitler, Pol Pot, etc. Sem falar, claro, no que rolou na super bem intencionada #sqn Revolução Francesa: um festival de cabeças rolando.

Essas "sociedades perfeitas" custaram caro e não aconteceram, tipo obra da Copa.

Por que não funcionaram?

A ciência devagarinho foi descobrindo que não, nós não nascemos em branco: herdamos geneticamente muitas coisas dos nossos primos primatas, da compaixão à guerra gratuita, do ciúme ao altruísmo, faculdades e "valores" e sentimentos que você já deve ter notado até no seu cachorro. O que mais o nosso DNA nos presenteia ao nascer? Drivers instalados pra linguagem, uma versão básica de física e matemática, capacidade para se indignar com a injustiça e amar o próximo (os beeeem próximos, quero dizer), etc, etc, etc.

O que a ciência está concluindo é que sim, existe algo que poderíamos chamar de natureza humana, e que tudo nela se explica em termos darwinistas, em termos evolutivos. E como evolução é um processo tumultuado e sem design thinking, a natureza humana é um saco de gatos de módulos que não concordam entre si, "apps" que conflitam o tempo todo, e um sistema operacional que tenta construir uma história coerente a partir de um samba do afro-brasileiro doido.

Não somos um robô, nem uma CPU, nem uma página em branco, nem uma alma perfeita incorpórea, nem um Ego mal acompanhado de ID"s e Superegos. Somos um saco de gatos que, devagarinho, vai se humanizando, se civilizando, e ampliando as suas possibilidades. Reconhecer a nossa natureza humana não é se ver prisioneiro numa cela de animalidade, mas é admirar de quantas maravilhas e progressos esse sistema aberto é capaz (ok, não pense no Trump por um momento).

Por que estou trazendo à tona essa história toda?
O que isso tem a ver com tech, digital, mídia, design, sei lá? Na verdade tem tudo a ver: muitas das disciplinas de Humanidades ainda se baseiam no princípio de que somos uma página em branco a ser transformada de um jeito ou de outro, e que se há Mal no mundo a culpa é da sociedade perversa.
Mesmo tech tem um vício parecido, imaginar que todos somos Teletubbies inofensivos que jamais usaremos tecnologia para o mal, ou que seríamos capazes de nos adequar à lógica matemática deixando pra trás nossa herança afetiva e irracional.

Na boa, véio, ou voltamos a nos aprofundar na nossa natureza humana, nesse bicho fascinante que somos nós ou a casa vai cair pra nóis, mano. É tensa essa parada, e eu quero o Obama de volta.

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